quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

De transportador a operador logístico: um longo caminho a percorrer.


Foto: Bruno Merlin/Navegantes
por Hélio Meirim


   Temos acompanhado, com certa frequência, notícias de que transportadoras estão se tornando operadores logísticos. Na minha análise, isto vem ocorrendo, de forma cada vez mais acelerada, devido a muitas transportadoras estarem sendo contratadas por operadores logísticos já existentes no mercado e detentores de grandes contas junto aos embarcadores para realizar a operação de transporte (coleta, transferência e distribuição fechada e fracionada da carga).

Neste cenário, é comum a transportadora, enxergando uma oportunidade de negócio existente, buscar tornar-se um operador logístico para então poder atuar de forma direta junto aos clientes, já que ao realizar a operação de transporte efetua uma parte muito importante do processo logístico.
Este processo de migração de transportadora para operador logístico pode parecer muito simples, mas existe um longo caminho a percorrer. Muitas transportadoras já reúnem grande parte dos requisitos para fazer esta migração de atividade. Mas, infelizmente, muitas agem com muita simplicidade na análise da questão e aí surge o risco de não ter sucesso em nenhuma das atividades.

Refletindo um pouco sobre o tema, comecei a analisar as possíveis causas de insucesso deste processo de migração de uma transportadora para um operador logístico, e penso que os dirigentes de transportadoras que estão vivenciando este processo devem analisar os seguintes pontos:

• Tecnologia - Operadores logísticos necessitam de grande suporte de tecnologia, pois a agilidade, a acurácia e principalmente a visibilidade da informação são cruciais para o bom atendimento ao cliente;

• Recursos Humanos - Operadores logísticos demandam profissionais altamente qualificados em termos operacionais, comerciais e principalmente gerenciais. Neste sentido faz-se necessário uma política de atração, capacitação, retenção e motivação das pessoas bem arrojada;

• Projetos & Processos – A produtividade de uma operação logística é obtida através de estudo de fluxos, tempos e movimentos e melhorias constantes nos processos de cada operação existente que deve buscar sinergia com as novas operações que chegam. Logo é essencial ter uma equipe que cuide destes pontos.

• Know-How Logístico – Um erro muito comum é a transportadora achar que por já fazer a operação de transporte, já ter um armazém onde mercadorias circulam e até ficam guardadas,  e em alguns casos já fazer etiquetagem em embalagens coletadas ela detém todo o know-how para se tornar um operador logístico. Operadores logísticos fazem e são responsáveis por muito mais do que estas atividades descritas. Logo é importante contar em seu quadro com profissionais que tenham know-how logístico.

• Negociações Comerciais – As negociações relacionadas a tarifas de fretes reúnem uma complexidade bem diferente de uma negociação de uma operação logística, onde devem ser consideradas diversas variáveis envolvidas. Vale destacar também que a negociação é realizada com tomadores de decisão de outra escala hierárquica do cliente, é mais longa e mais técnica exigindo assim um profissional mais qualificado;

• Apuração de custos – Em operações logísticas, é essencial conhecer bem detalhadamente os custos de cada etapa do processo operacional do cliente. Este detalhamento lhe proporcionará identificar se o seu preço está adequado, se existe possibilidade de redução, sinergia ou otimização de recursos;

• Retorno do Investimento – Normalmente, projetos logísticos demandam de um prazo maior para darem retorno. No entanto, as margens são maiores e os contratos estabelecidos com os clientes mais longos. Como grande parte das vezes a transportadora tem uma estratégia de curto prazo, quando se deparam com negócios que gerarão retorno de médio e longo prazo existe um certo impasse.

• Conhecimento tributário – Operações logísticas são regulamentadas por legislação própria e é imprescindível a existência de um profissional que entenda bem destas questões.

• Cultura Organizacional – Muitos processos de migração de transportadora para operador logístico fracassam, pois a cultura da empresa e a forma de condução de seus dirigentes continuam atreladas a forma antes utilizada para gerir os negócios focados somente em operações de transportes.
Como podemos verificar acima, existem alguns pontos que precisam acompanhar a decisão da transportadora caminhar para se tornar um operador logístico. Com certeza existem muitos outros a serem observados também. Mas o importante é que a transportadora ao pensar em tomar esta decisão não a faça apenas por impulso, modismo ou por querer avançar em outro mercado. Que esta decisão seja pensada, estruturada, planejada e principalmente consciente das mudanças que serão necessárias na forma de gestão destes novo negócio, pois de outra forma a chance deste processo de migração não lograr êxito tende a aumentar.


Fonte: Porto da Gente